| O ônibus é a praia do povo |
|
|
|
Anna Veronica Mautner Quer confirmar? Basta olhar em volta, no metrô ou à espera dele, no ônibus ou à espera dele, para encontrar mulheres que não se inibem em mostrar os recortes de seu corpo e até das partes… como as chamaremos? Depois, é só olhar a roupa dos ricos, estampada nas revistas, na televisão: as supostas formadoras de opinião se vestem diferente. Dizer que as roupas baratas não são feitas em números grandes não é verdade -ou, pelo menos, não justifica. Mesmo porque as mulheres magras, do povo, também se esmeram em usar roupas agarradas. Não é questão de tamanho nem de preço. Creio que é de classe social. O confeccionista faz o que tem mais saída.
Não estou discutindo se cavalo curto, entrando pelas reentrâncias, é bonito ou feio, se agrada ou não agrada, se é sexy ou não. Uma coisa é certa:
cavalo curto, com camiseta curta e apertada, apela para o erótico e deve atender a algum apelo de diferenciação de gênero. Atribuo seu sucesso a Eros.
O que me intriga é o seguinte: dizem que as mulheres da classe trabalhadora almejam ter acesso ao universo das “madames”; mas, no que se refere ao cavalo curto e ao tamanho das
roupas, observamos uma completa autonomia entre as duas classes de mulheres.
Justamente pensando nisso, ocorre-me uma idéia. Espremida entre o trabalho e todas as tarefas caseiras que lhe cabem, a mulher trabalhadora, a mulher operária, encontra no
espaço da locomoção pública o lugar onde “vê e é vista”. Aí ela se compara e pode viver sua sensualidade e seu erotismo. Na falta de tempo para freqüentar praia, clube e shopping, as mulheres da classe trabalhadora encontraram uma saída criativa. Não sendo vergonha nenhuma ser mulher e querer agradar, usam o espaço público da urbe para paquerar -ele se presta muito bem a isso. É verdade que são horas e horas de possível desconforto, mas “vendo e sendo vistas”. E, para tanto, a roupa que mostra sem desvelar é o ideal, já que o biquíni na cidade é impossível. Parabéns ao instinto de vida! ANNA VERONICA MAUTNER , psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (ed. Ágora) Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, é necessário activar o Javascript par o poder ver. Fonte: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, é necessário activar o Javascript par o poder ver. Fonte: Folha de São Paulo - Equilíbrio Leia mais em: |
| < Anterior | Seguinte > |
|---|


